A importância do diagnóstico preventivo das doenças renais pediátricas

Tempo de leitura: 7 minutos

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Maria Goretti Moreira Guimarães Penido em nome do: Departamento de Nefrologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Nefrologia 

Nilzete Liberato Bresolin em nome do: Departamento de Nefrologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria

O Dia Mundial do Rim é comemorado anualmente na segunda quinta-feira de Março. É uma campanha global focada na conscientização sobre a importância das doenças renais e seu impacto sobre a saúde em curto e longo prazo. 

Em termos pediátricos é importante destacar que as doenças renais podem ser, inicialmente “silenciosas” com sinais e sintomas inespecíficos, que podem no entanto, resultar em consequências danosas no nível renal e sistêmico.

Ao chamarmos a atenção da comunidade médica sobre este Dia Mundial do Rim objetivamos estimular os colegas pediatras a se envolverem com medidas que visam diagnóstico precoce e preventivo de entidades clínicas nefrológicas a partir de alto grau de suspeita.

Estas medidas preventivas devem ser primárias, ou seja, o pediatra e outros profissionais que lidam com crianças e adolescentes devem trabalhar na tentativa de eliminar ou reduzir a exposição a fatores de risco para doença renal crônica.

Esta prevenção se inicia antes da mulher engravidar e durante a gestação, portanto, ginecologistas e obstetras devem ser orientados.
  1. Para o controle da futura mãe deve-se estar atento a:
  • uso de drogas (inibidor da enzima de conversão de angiotensina – IECA, bloqueador do receptor de angiotensina – BRA, antiinflamatório não esteroidal – AINES, drogas ilícitas)
  • sobrepeso/obesidade e síndrome metabólica
  • dislipidemias
  • nutrição da futura mãe
  • doenças na futura mãe (rubéola, toxoplasmose, citomegalovírus, etc)
  • aconselhamento genético
  • uso de ácido fólico

2. Para o controle da gestante deve-se estar atento a:

  • uso de drogas (IECA, BRA, AINES, drogas ilícitas)
  • sobrepeso/obesidade e síndrome metabólica nesta gestante
  • dislipidemias
  • proibição de fumo e álcool
  • nutrição materna
  • doenças na gestante (rubéola, toxoplasmose, citomegalovirus, etc)
  • prevenção de prematuridade, se possível
  • detecção precoce do crescimento intra-uterino retardado

3. Para o controle do recém-nascido, especialmente os prematuros e prematuros extremos, e do lactente deve-se estar atento a:

  • abordagem adequada e precoce da sepse neonatal (atenção para drogas nefrotóxicas – AINES e aminoglicosídeos = potencialização); cuidado com uso de contrastes, atenção para o diagnóstico de injúria renal aguda; para hipovolemia e choque com reposição rápida e manutenção de volume.
  • uso de drogas na mãe lactante (IECA, BRA, AINES, drogas ilícitas, fumo e álcool)
  • incentivo ao aleitamento materno
  • nutrição do lactente
  • atenção para o fumo passivo
  • cuidado com o ganho de peso rápido (“catch up”) pós-natal
Para alcançar estes objetivos é necessário orientação de pediatras, pais e cuidadores.

4. Para o controle de crianças e adolescentes deve-se atentar para:

  • prevenção de sobrepeso/obesidade e dislipidemias
  • educação alimentar
  • atividade física
  • aleitamento materno
  • restrição de fumo e álcool
  • Prática de alimentação saudável e de exercícios físicos.

Inquestionavelmente, é fundamental que profissionais de saúde (pediatras e outros), pais, dirigentes de escolas e comunidade estejam conscientizados e envolvidos. É importante saber que os padrões alimentares são estabelecidos nos dois primeiros anos de vida, ou seja, período quando se cria o paladar. Médicos e outros profissionais de saúde, pais ou cuidadores, escolas e creches devem estar bem preparados para orientar a família e as crianças, sempre que possível, com participação em atividades educativas.

População Pediátrica em Risco

A população pediátrica considerada de risco deve ser rastreada sempre:

  • História familiar de doença renal crônica ou outra doença renal genética,
  • História familiar de hipertensão, diabetes e doença cardiovascular,
  • Os recém nascidos de baixo peso e prematuros, especialmente prematuros extremos,
  • História de longa permanência hospitalar no período neonatal,
  • Displasia ou hipoplasia renal,
  • História de tumores e traumas medulares,
  • Malformações congênitas do trato urinário,
  • História prévia de síndrome hemolítico-urêmica,
  • História prévia de glomerulopatias,
  • Crianças com sobrepeso / obesidade,
  • Pacientes com doenças da bexiga: bexiga neurogênica (especialmente aqueles com diagnóstico de mielomeningocele) e disfunção do trato urinário inferior (principalmente se houver infecção urinária febril recorrente).
Outras informações de alerta também de extrema importância estão descritas abaixo:
  1. Ter ciência que cerca de 10% dos lactentes, especialmente lactentes jovens (um a seis meses de vida), que chegam às emergências, tendo como único sinal febre alta, podem ter infecção do trato urinário (ITU),
  2. Saber que a ITU é comum na faixa etária pediátrica. O padrão ouro para seu diagnóstico é a urocultura positiva a partir de coleta adequada da urina,
  3. Saber que pacientes com hidronefrose fetal devem ser avaliados no pós-natal imediato pelo nefrologista pediátrico e conduzidos de acordo com protocolos específicos,
  4. Ter ciência que crianças e adolescentes devem ter seus níveis tensionais arteriais aferidos com técnica adequada e que devem ser classificados a partir de tabelas que levem em consideração o sexo, a idade e o percentil estatural. Aquelas diagnosticadas como hipertensas ou como portadoras de pressão arterial normal alta devem ser acompanhadas regularmente e devem ser orientadas em relação às medidas não farmacológicas para controle da pressão arterial:
  • redução de peso para os obesos e aqueles com sobrepeso,
  • ingestão de frutas e verduras frescas,
  • redução de dietas com excesso de sal, gordurosos e de carboidratos,
  • Redução do sedentarismo e estímulo às atividades ao ar livre:
    • Recomendações para 60 minutos de atividade física por dia,
    • Participação nas atividades domésticas, adequadas para a idade (varrer, arrumar camas, etc)
    • Passeios familiares que incluam caminhadas, bicicleta, natação ou outras atividades recreativas,
    • Uso de TV, games, computadores e celulares < 2 horas por dia

5. Ter o conhecimento que as crianças devem ser investigadas em relação ao hábito miccional e intestinal. Havendo disfunção devem ser orientadas e acompanhadas, e sempre que necessário, devem encaminhadas para avaliação especializada,

6. Ter conhecimento que a incidência e prevalência de urolitíase (UL) em pediatria tem aumentado nas últimas décadas e sempre que houver este diagnóstico há necessidade de investigação sobre a etiologia e tratamento preventivo de recorrência além de tratamento específico. A UL pode ser um epifenômeno de doenças graves em pediatria como, por exemplo, a cistinúria e a oxalose,

7. Saber que todos os pacientes pediátricos que tiveram Lesão Renal Aguda podem evoluir com comprometimento da função renal em longo prazo e devem ser acompanhados em relação à ocorrência de microalbuminúria e/ou proteinúria, hipertensão arterial e disfunção renal progressiva,

8.  Ter o conhecimento de que comprometimento pondero-estatural pode ter como causa nefropatias e/ou doença renal crônica e que estas devem ser consideradas entre as hipóteses diagnósticas,

9. O diagnóstico de hematúria deve confirmado adequadamente e suas causas devem se investigadas e esclarecidas para reduzir a  ansiedade para o paciente e seus familiares e para orientar qual paciente deverá ser encaminhado ao nefrologista pediátrico,

10. Necessidade de identificação e reversão com brevidade de situações de desidratação prolongada, principalmente em pacientes de risco para doença renal crônica.

Assista ao depoimento do Dr. José Maria Penido sobre o Dia Mundial do Rim.

A prevenção de enfermidades renais começa antes da gravidez, durante a gravidez e durante toda a infância. Médicos, pais, cuidadores, escolas, creches e comunidade são responsáveis!

Veja também: Câncer Infanto-Juvenil: a importância do diagnóstico precoce.

Febre Amarela: informações chave sobre diagnóstico e conduta nos casos suspeitos.

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