Proteção Solar na Infância

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Proteção Solar na Infância
Proteção Solar na Infância

Nos últimos anos, tem-se observado um aumento na incidência dos cânceres de pele, sendo que a radiação ultravioleta A (RUVA) e a radiação ultravioleta B (RUVB) têm uma participação relevante na etiopatogenia dessas neoplasias. A exposição crônica à radiação ultravioleta (RUV) é importante no desencadeamento do envelhecimento cutâneo e do carcinoma espinocelular. Já a exposição intermitente e aguda, comum no período de férias, tem um papel fundamental na gênese do melanoma e do carcinoma basocelular. Vários estudos têm demonstrado que queimaduras solares, principalmente antes dos 10 anos de idade, constituem fator de risco para o desenvolvimento do melanoma. A infância e a adolescência são períodos vulneráveis para esses efeitos carcinogênicos já que 25 a 50% da exposição solar que um indivíduo recebe em toda a sua vida ocorrem nos seus primeiros 20 anos de vida. Torna-se imprescindível, portanto, que a proteção solar seja iniciada precocemente na infância.

Enquanto o teor de RUVA sofre oscilações muito pequenas durante todo o dia, a RUVB apresenta incidência maior no período compreendido entre as 10 e 16 horas. Outros fatores que determinam o aumento da RUV são a baixa latitude, a maior altitude e dias de céu claro. Apesar de a RUV ser mais intensa no verão, em um país tropical como o nosso ela é significativa durante todo o ano. O índice UV (IUV) é um parâmetro muito útil para avaliarmos a intensidade da RUV a que estamos expostos. Esse índice é classificado em números e cores, sendo que valores superiores a 8 e cores vermelha e roxa são considerados de dano extremo à saúde. (Quadros 1 e 2 ).  Este IUV pode ser consultado na maioria dos sites e aplicativos de previsão do tempo.

Quadro 1: Índice UV

Quadro 1: Índice UV -Proteção Solar na Infância
Quadro 1: Índice UV -Proteção Solar na Infância

 

Quadro 2 : Índice UV e medidas de proteção

Quadro 2 : Índice UV e medidas de proteção
Quadro 2 : Índice UV e medidas de proteção

Além da intensidade da RUV, é fundamental considerar a susceptibilidade individual a esta radiação. Pessoas de pele, olhos e cabelos claros são mais sensíveis aos efeitos danosos da RUV, por não produzirem melanina suficiente para sua proteção quando expostas ao sol. A classificação de Fitzpatrick é muito útil para avaliar essa susceptibilidade (Quadro 3).

 

Quadro 3: Classificação de fototipo (adaptada de Fitzpatrick)

Quadro 3: Classificação de fototipo (adaptada de Fitzpatrick)
Quadro 3: Classificação de fototipo (adaptada de Fitzpatrick)

* SED: dose eritematosa padrão

A dose acumulada de RUV é representada arbitrariamente por uma escala como dose eritematosa padrão (SED) e uma unidade equivale a 100 J/m2. Recomendações internacionais sugerem que uma dose diária 1,08 SED é suficiente para satisfazer as necessidades diárias de vitamina D. Na quinta coluna do quadro 3 descreve-se os valores de SED necessários para produzir eritema de acordo com o fototipo. Doses variando de 1,5 a 3,0 são suficientes para produzir eritema nos pacientes de pele mais clara, fototipos 1 e 2 (Quadro 3).

Desse modo, a orientação de proteção solar pode variar de acordo com a susceptibilidade do indivíduo, com a sua atividade laboral e de lazer e com a sua localização geográfica.

A proteção solar inicia-se com a educação das crianças quanto aos seus riscos e ao cuidado de não se expor ao sol nas horas de maior incidência de RUV que é de 10 às 16 horas. A procura de locais com sombra é fundamental nesses horários. Areia, neve, gelo, vidros e metais podem refletir de 15% a 85% da RUV.

Outra forma de proteção é o uso de roupas adequadas. De uma maneira geral, as roupas escuras, de trama fechada, secas e de nylon ou poliéster protegem mais. Entretanto, já existem no mercado roupas com incorporação de filtro solar em seu tecido que aumenta muito a proteção. Nestes casos, a etiqueta da roupa determina a proteção a RUV (tanto para UVA e UVB) utilizando uma unidade de proteção solar (UPS) que deve ser maior que 30. O uso de chapéus de aba larga (maior que 7,5 cm) também é recomendado, além do uso de óculos com proteção para RUV.

O uso do filtro solar é mais um instrumento de proteção à RUV. Esses produtos, quando aplicados sobre a pele, vão absorver ou refletir os raios RUV. Subdividem-se em filtros orgânicos, que absorvem a RUV, e inorgânicos, que refletem a RUV. A maioria dos produtos disponíveis no mercado é uma combinação das duas modalidades. Os filtros exclusivamente inorgânicos são raros atualmente, mas são os preferidos para as peles muito sensíveis e lactentes (crianças entre os 6 meses e 2 anos de idade) por raramente causarem irritações ou reações alérgicas. Não se recomenda o uso de filtros solares em menores de seis meses de idade.

Um dos critérios para a escolha de um protetor solar é a sua eficácia, avaliada pelo fator de proteção solar (FPS). O FPS é uma razão entre a dose mínima de RUV necessária para produzir eritema em uma pele com e sem filtro solar. Quanto maior o FPS, maior a proteção contra a queimadura solar.  Para avaliar a proteção da RUVA existem dois critérios que são utilizados em conjunto: comprimento de onda crítico igual ou maior a 370 nm, e o teste de fator de proteção-UVA (FP-UVA). Esse fator deve ser de pelo menos 1/3 do valor do FPS.  Ou seja, um filtro solar adequado de largo espectro com FPS 30 deve ter um FP-UVA de pelo menos 10.

Outros fatores influenciam na eficácia do produto. Um dos principais é o emprego de quantidades inferiores às preconizadas para uma proteção adequada. O volume recomendado é de 2 mg/cm2. Considera-se que a maioria das pessoas utiliza um volume de 0,25 a 1 mg/cm2, o que reduz muito o FPS.  Para facilitar o cálculo, pode-se utilizar a regra da colher de chá. Para um adulto aplicar o produto em todo o corpo ele deve utilizar de 6 a 9 colheres de chá com a seguinte distribuição: uma colher para cada braço, cabeça e pescoço e duas colheres de chá para cada perna, tronco anterior e posterior.

Deve-se prestar atenção em aplicar uma camada uniforme em toda a superfície corporal. O filtro solar deve ser aplicado 20 a 30 minutos antes da exposição solar e reaplicado a cada 2 horas de exposição solar, sudorese excessiva e natação. Para a prática de esportes é necessário avaliar no rótulo se o produto é resistente à água. Um produto considerado resistente à água tem o seu FPS determinado após 40 minutos de imersão em água, e o muito resistente à água tem o seu FPS determinado após 80 minutos de imersão. O termo à prova d`água não deve ser utilizado.

Por último, não devemos esquecer a importância da RUVB na produção da vitamina D. A incidência de RUVB na pele é a principal fonte de vitamina D para o organismo. A produção de vitamina D na pele é influenciada pela cor da pele, idade, latitude, altitude, horário do dia e estação do ano. Peles escuras, pessoas idosas, inverno, horários extremos do dia (fim de tarde e início da manhã), altitudes baixas e altas latitudes são fatores limitantes para uma adequada produção de vitamina D. Outras variáveis como estilo de vida e comorbidades como doenças crônicas e uso crônico de medicamentos podem afetar a produção de vitamina D.

Uma proteção solar rigorosa pode reduzir a capacidade de produção de vitamina D, levando a uma deficiência. O risco é maior nos lactentes em aleitamento materno exclusivo, sem suplementação de vitamina D e de pele escura. Outras crianças de risco são as prematuras. Na impossibilidade ou dúvida de exposição solar, deve-se fazer a suplementação com 400 a 600 UI de vitamina D por dia. Uma dúvida muito comum é o tempo necessário de exposição solar para a produção da vitamina D. Considera-se que para uma produção adequada de vitamina D é necessária a exposição de 25% a 40% da superfície corporal a 0,25 da dose eritematosa mínima.

O quadro 4 demonstra os dados de um trabalho realizado em São Paulo por Correa et al, 2010. Relaciona o tempo necessário para produzir vitamina D de acordo com a hora do dia, superfície corporal exposta e cor de pele (fototipos II e IV) na época do verão.

Quadro 4: Tempo de exposição (minutos) à RUV no verão (São Paulo) para produzir vitamina D para peles fototipo II e IV.

Face e mãos Face, mãos e braços Face, mãos, braços e pernas Corpo inteiro
II IV II IV II IV II IV
9 hs 20 40 7,5 15 4 8

2,5

5

10 hs 12 24 5 10 3 6 2 4
11 hs 11 22 5 10 3 6 2 4
12 hs 8 16 3 6 2 4 1 2
13 hs 10 20 4 8 2 4 1 2
14 hs 12,5 25 5 10 2,5 5 2 4

15 hs

25 50 10 20 5 10 3

6

16 hs 30 60 12 24 7,5 15 5

10

 

Podemos observar no quadro 4 que, quanto mais próximo do horário do meio-dia e maior a superfície corporal exposta, menor o tempo para a produção de vitamina D. Outro aspecto é que a pessoa morena (fototipo IV) leva o dobro do tempo, em média, para produzir a vitamina D quando comparada com a pessoa clara (fototipo II). Podemos deduzir que a pessoa de pele negra (fototipo VI) levaria o dobro de tempo da pessoa de pele morena (fototipo IV).

O quadro 5 demonstra os dados de outro trabalho também realizado por Corre e col, 2013. Associa a quantidade de RUV a que estamos expostos em várias situações do dia-a-dia como hora do recreio em escolas, horário de almoço, com situações climáticas diversas na cidade de São Paulo.

Quadro 5: Doses de SED em diferentes períodos do dia em São Paulo

Pode-se observar que a RUV é muito elevada em diversos horários do dia, excedendo em muito a dose que causa a queimadura da pele. Uma caminhada de 30 minutos no horário do almoço é suficiente para causar queimadura solar nos pacientes de fototipo 1 a 4, nos dias sem nuvens ou pouco nublados, no verão.  O banho de sol antes das 10 horas pode ser perigoso em algumas épocas do ano, como o verão. E a exposição solar entre 11 e 13 horas pode causar queimadura solar em todos os fototipos na época do verão, chegando a exceder em 20 vezes a dose necessária para ocasionar queimadura nas pessoas de pele clara.

Deve-se atentar a recomendações equivocadas em relação à exposição solar para a produção de vitamina D. Uma é a orientação de exposição solar antes das 9 horas da manhã para a produção da vitamina D e a outra, mais atual, é a exposição solar no horário do almoço. Antes das 9 horas da manhã a RUVB é insuficiente para este fim, e a RUVA já está presente neste horário, aumentando o risco cumulativo da RUV. No horário do almoço, tanto a RUVA como a RUVB estão muito elevadas, aumentando muito o risco de queimadura solar, que é um fator de risco importante para o desenvolvimento do melanoma, um câncer agressivo quando não diagnosticado e tratado precocemente.

Tanto a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) quanto a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) não recomendam a exposição intencional ao sol com o objetivo de prevenir ou tratar a deficiência de vitamina D.

 

Cláudia Márcia de Resende Silva
Presidente do Comitê de Dermatologia Pediátrica da SMP

 

Bibliografia

Corrêa MP, Ceballos JC. Solar Ultraviolet Radiation Measurements in One of the Most Populous Cities of the World: Aspects Related to Skin Cancer Cases and Vitamin D Availability. Photochem Photobiol 2010; 86: 438-444.

Corrêa MP, Pires LCM. Doses of erythemal ultravioleta radiation observed in Brazil. Int J Dermatol. 2013 Aug;52(8):966-73.

Schalka S, Steiner D, Ravelli FN, Steiner T, Terena AC, Marçon CR, et al. Consenso Brasileiro de Fotoproteção. An Bras Dermatol. 2014; 89 (6 Supl1): S6-75.

Silva CMR, Gontijo B, Pereira LB, Café MEM. Fotoproteção na infância. Rev Med Minas Gerais 2005; 15: 250-255.

Sociedade Brasileira de Pediatria SBP. Guia de fotoproteção na criança e adolescente. Disponível em: < http://www.sbp.com.br/cuidados-com-a-pele/> . Acesso em 02/12/2017

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