Vacinação Contra o Surto de Sarampo

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10 de março 2014 2 – nº 12. Boletim Científico Online.

Raquel Pitchon dos Reis – Presidente da Sociedade Mineira de Pediatria e Especialista em Pediatria, Alergia e Imunologia e Alergia e Imunologia Pediátrica

Alexandre Sérgio da Costa Braga – Presidente do Comitê de Infectologia da SMP, Membro do Grupo de Infectologia Pediátrica do Hospital das Clínicas – UFMG, Mestre Saúde da Criança e do Adolescente – UFMG, Coordenador do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital da Polícia Militar MG, Membro da Comissão de Controle de Infecção de Unidades de Urgência – PBH

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Introdução

Embora tenha havido muitos avanços, os desafios ainda existem para alcançar a meta de eliminação do sarampo, como evidenciado pelos surtos da doença em várias regiões, com morbidade e ocorrência de mortes evitáveis. O grande desafio mundial para alcançar a eliminação dessa doença é a incapacidade de se vacinar toda a população no tempo certo. Como consequência, os bolsões de indivíduos suscetíveis ao vírus podem resultar na transmissão da doença.

A maioria dos surtos ocorre em populações não imunizadas como, por exemplo, aquelas de difícil alcance geográfico, populações vulneráveis e grupos com preocupações em relação a possíveis riscos resultantes da aplicação da vacina. Outros grupos, por crenças religiosas, filosóficas ou culturais contra imunização, não farão adesão ao calendário. Esses fatos são observados em muitas populações e são independentes da renda familiar per capita.

Devido aos surtos contínuos e ao aumento da incidência do sarampo, em alguns países, não é aconselhável retardar a administração da primeira dose da vacina para depois dos 12 meses de idade ou o reforço para após os 6 anos de idade. Além disso, devem ser realizados todos os esforços para garantir que pais e profissionais da saúde cumpram os esquemas de imunização existentes e que as crianças recebam as vacinas em dia.

A vacina antissarampo é composta por cepa de vírus vivo atenuado, preparada em cultura celular de embrião de pinto. Está disponível em formulações combinadas, como a vacina contra sarampo- caxumba- rubéola (triviral ou SRC ou MMR) e a vacina contra sarampo- caxumba- rubéola-varicela (tetraviral ou SRCV ou MMRV).

Os anticorpos vacinais se desenvolvem em 95% dos imunizados após os 12 meses de idade e em 98% daqueles vacinados acima dos 15 meses.  A primeira dose na imunização de rotina é realizada entre 12 e 15 meses de idade. A segunda dose pode ser realizada, decorridos no mínimo 28 dias da primeira dose, mas, em geral, indicada entre 2 e 6 anos de idade. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, a vacina é recomendada rotineiramente, aos 12 e 15 meses de idade.

Imunização durante surtos do sarampo

Em situações epidêmicas ou viagens para regiões endêmicas para o sarampo, antecipa-se a vacinação das crianças para a idade dos 6-11 meses. Esse grupo deverá ser revacinado aos 12-15 meses e também receber uma terceira dose de reforço, que, no Brasil, é recomendada até os 2 anos de idade. A taxa de soroconversão, em imunizados antes dos 12 meses de idade, é muito menor, o que justifica a repetição da dose após 12-15 meses de idade e a manutenção do reforço. O intervalo mínimo entre a segunda e a terceira dose é de 28 dias.

Todos os adolescentes e adultos jovens devem ser vacinados, exceto aqueles que apresentarem registro da aplicação das duas doses da vacina antissarampo. Na ausência da documentação da imunização prévia, eles deverão receber duas doses da vacina triviral com intervalo mínimo de 28 dias entre as mesmas. Nos casos em que uma dose foi realizada após 12 meses de idade aplica-se apenas mais uma dose.

Os dados disponíveis sugerem que a vacina antissarampo, administrada dentro de 72 horas após exposição ao vírus, confere proteção em alguns casos e é a intervenção de escolha para o controle de surtos em creches e escolas.

Vacinas combinadas

A vacina tetraviral ou MMRV, associação entre as vacinas do sarampo, rubéola, caxumba e varicela, é indicada para crianças entre 2 e 12 anos. Devido à preocupação quanto ao risco aumentado de convulsões febris em crianças de 12 a 23 meses, a ACIP do CDC recomenda, nessa faixa etária, o uso de injeções separadas para administração da triviral e da varicela, mas que podem ser realizadas simultaneamente. A combinação tetraviral é preconizada para o reforço aos 2-6 anos. Nos casos em que os pais ou responsáveis solicitem a administração da tetraviral na primeira dose, ela poderá ser aplicada, desde que sejam expostos previamente os seus riscos e benefícios.

No calendário de vacinação da criança, publicado pela Sociedade Brasileira de Imunizações para o ano de 2013/2014, indica-se a vacina triviral em situações usuais, para o período de 12-24 meses de idade, ou antes, em caso de epidemia. Quanto à tetraviral, orientam que deve ser considerado o risco aumentado da febre alta e a ocorrência mais frequente de exantema após a primeira aplicação dessa vacina.

Contraindicações e reações adversas

A alergia a ovos não contraindica a vacina, assim como a alergia a neomicina, não anafilática, que, na maioria das vezes, se manifesta como dermatite de contato. Já os casos de anafilaxia grave à neomicina e à gelatina contraindicam a imunização e devem ser avaliados pelo pediatra especialista em alergia e imunologia.

Em caso de história pessoal e/ou familiar de convulsões, a imunização deve ser realizada e os pais advertidos sobre o risco discretamente aumentado do desencadeamento de crises convulsivas.

Embora não seja contraindicada, deve-se evitar a aplicação simultânea das vacinas tríplice viral e febre amarela, por possibilidade de interferência na resposta das mesmas.

As crianças em corticoterapia sistêmica, com doses diárias iguais ou maiores a 2mg/kg ou 20mg de prednisona, e /ou portadoras de imunodeficiência primária ou secundária não devem receber a vacina. A corticoterapia preventiva para asma, em doses usuais, não contraindica a vacina.

Os efeitos adversos relatados após a vacinação incluem: dor no local da injeção, eritema, enduração local, linfadenopatia, trombocitopenia e cefaleia. Entre o quinto e décimo quinto dia após a vacinação pode ocorrer febre, exantema, irritabilidade, conjuntivite e /ou manifestações catarrais.

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Referências bilbliográficas

  1. Martin R.Wassilak S, Emiroglu N, Uzicanin A, Deshesvoi S, Jankovic D, Goel A, Khetsuriani N. What will it take to achieve measles elimination in the World Health Organization European Region: progress from 2003-2009 and essential accelerated actions. J Infect Dis. 2011 Jul;204 Suppl 1:S325-34. doi: 10.1093/infdis/jir137.
  2. DeQuadros CA, Izurieta H, Carrasco P, Brana M, Tambini G. Progress toward measles eradication in the region of the Americas. J Infect Dis. 2003;187 Suppl. 1:S102-10.
  3. Ribeiro JGL. Vacinações. In: Leão E, Correa JC, Mota JAC,Vianna BM,Vasconcellos. Pediatria ambulatorial. 5ª ed. Belo Horizonte: Coopmed, 2013. p.175-176.
  4. Red Book. American Academy of Pediatrics 2009. p.545-555.
  5. MMWR, May 7, 2010, Vol 59, #RR03 MMRV—Use of Combination Measles, Mumps, Rubella, and Varicella Vaccine Recommendations of the ACIP.
  6. Calendário de Vacinação da Criança: Recomendações da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) – 013/2014. Disponível em http://www.sbim.org.br/

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